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quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Linfoma a escrota, ou de como não aplicar uma quantitésimalidade, não arrendondada, a dados históricos e sociológicos da "Boca do Lixo" da Europa



Eu sei que a foto (http://www.rotten.com/) é terrível, mas o original está todos os dias, em plena Praça do Rossio, e desvio dele a cara, desde pequenino.
Infelizmente, não posso passar a vida a desviar a cara de todas as coisas: há um lado que se chama a Miséria e, outro, o folclore que podemos fazer com essa mesma miséria.
A Europa, a tal cinquentona, correu, com tudo quanto era sítio, com as tais "ciganas", que alugam filhos, para andar ao colo, e a bater nos vidros dos carros, "tende uma mãie com seue filhou, para dar de comer ao seu filhuoe!...", e caíram em Portugal. De aqui já não saem, porque, em Marrocos, seriam lapidadas.
Lembro-me de o meu pai dizer deste homem, que publicamente expõe a sua cruel doença, que, em Hollywood, seria milinionário de um filme, onde representasse o seu próprio papel. Era uma hipótese. Em Portugal, resume-se a estar em sítio de exposição total, o Rossio, para que os estrangeiros virem a cara, ou tentem tirar fotos surrateiramente, e levem, depois, um "recuerdo" de aqui, para mostrar como ainda continuamos no tempo de Zurbarán, Goya e Vélasquez, por ordem trocada, mas não faz mal.
A verdade é que continuamos: o nosso panorama está cheio de monstros, de feridas expostas, de anões, de fenómenos do entroncamento, de heterossexuais passivos, de licenciados da bemposta, de aleijões que batem na avó. E o Brasil é isso tudo, mas em grande.
Ontem, os Portugueses, um povo culto, tendencialmente licenciado em estender-a-mão, optou por critérios quantitativos, arredondados, para escolher "O Maior Português de Sempre". Era elementar, e vamos evitar arredondamentos -- sou mau para as contas -- em 800 anos de História, houve um gajo que governou 5% desse tempo, o seu nome era Salazar. Já Cavaco, outra luminária, reinou 1%, e anda a habilitar-se a ter reinado 2%. Sócrates já reinou 0% da nossa História, e 0% bem merecidos. Cunhal esteve preso 1% da nossa História, e eu escrevo para a Net há 1% da nossa História, embora só as últimas décimas se tenham tornado... perniciosas.
Eu, que sou um gajo de golos e recordes de guiness, obviamente, se me puserem no prato, defronte do focinho, um gajo que se manteve, sem mexer um músculo, 5% da História deste Cubículo, à frente do Timão, é bué da óbvio que eu vou votar nele para o Maior Português de Sempre.
E votei.
Todavia, o erro estava na votação: deveria ter-se apostado no Português mais pequeno de sempre, e teríamos, mano-a-mano, o Marques Mendes, o Pimenteiro Vitorino e a Maria de Belém Roseira.
Se o critério fosse o Português que mais tempo se manteve no seu posto de trabalho, teríamos uma votação oscilante entre Pinto da Costa, Gilberto Madaíl, Alberto João Jardim e a Marreca de Monsanto.
A nota final vai para a Boca do Lixo. O Rynaldo trouxe para aqui a Boca do Lixo, um luxo no romance oral português: mais bonito do que isso... só a expressão "Passos Perdidos" da Assembleia da República, e suponho que se equivalham.

Confesso que nunca fui à Boca do Lixo, e gostava, deve ser uma coisa mista do Intendente antigo com o recente, mas em GRANDE, uma coisa bué da lixeira, bué da sórdida, bué da gajas sem dentes a mamarem, como uma que fazia broches defronte do Cinema Lyz, trabalhadeira aos 75 anos, e por vinte e cinco tostões.
Uma das minhas primeiras angústia existenciais foi vê-la, do alto, e por detrás dos pesados reposteiros de veludo da minha vovó, "trabalhar" na Noite de Natal. 25 tostões.

Brevemente, pelo caminho que isto leva, vamos ter a Punctum, o Pedroso, o Papoy, a E-Konoklasta, o Kaos, e todos os meus amigos/as daqui a verem-me a disputar, com um cão fedorento, um qualquer osso, num caixote tombado, da Boca do Lixo.

Como dizia o Guterres, "é a vida".
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